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quarta-feira, 14 de março de 2012

RealMENTE

  Escrever é colocar à tona as emoções. E no meu caso, todas elas de uma vez. Não sei se já me encontro preparada, mas que diferença isso faz agora? É tão triste perceber o quanto se vive a realidade. E o quanto o real pode machucar. E o quanto as coisas, por mais concretas que possam parecer se desfarelam em segundos, por leves tremores. Bases não sólidas, é o que dizem por aí. Mas o que importa o que dizem por aí?
  Sei que vivo, a cada dia mais fria e meu coração apedrejado parece se petrificar. Sei que não quero pensar. Sei que não quero sentir. Por ter me entregado demais ao sentimento. Sei que o tempo cura, mas cicatrizes são  inevitáveis. E que o processo, ah o processo!, só a palavra já me causa uma estranha mistura de tédio, repulsa e apreensão. Não sou aparato culinário para processar nada! Não sou advogada para processar ninguém! Sou apenas um alguém. "Um alguém que chora, por qualquer lembrança de nós dois".
  Não sei do dia de amanhã, nem da prova de depois, ou sequer do minuto seguinte ao de agora. Não sei se vou aguentar, ou se superarei, até mesmo minhas próprias expectativas. Não sei quão profundo foi o corte, ou quanto tempo ficará o hematoma. Mal imagino, ou não quero imaginar. Não, realmente, de nada sei. Sei que sábio foi Sócrates ao declarar tal fato.
   Sinto na pele e no coração, os efeitos colaterais dessa vida de amores. Parece o suficiente para ensinar-me algo. E parece participar desse aprendizado todo e qualquer órgão meu.
   Preciso de uma Hemodiálise de pensamentos. Enzimas, aliás, para acelerar o bendito ''processo''. Morfina para aliviar a dor. Ou então... Ou então nada. O pior é saber que só o tempo faz passar. 
   É ao tempo que vou implorar, inutilmente. É a mim que irei culpar, injustamente. É a paz que irei buscar, eternamente. E é sofrendo que sigo, sem adjetivos que possam me expressar.

  Acabei de avistar uma placa no caminho, logo após o radar que me fez reduzir a velocidade. O que está escrito? Só chegando mais perto para ler. Vou sem pressa, evito acidentes. Sinto-me cansada, mas não vou parar o carro. Mesmo se o pneu furar, se arranharem a lataria, ou se o passageiro não colaborar. Independente de curvas, buracos, radares, quebra-molas. Preciso chegar ao meu destino, e não posso me esquecer de quem guia o carro.

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